Restrição a fornecedores por origem seria uma catástrofe para ISPs

Emissários norte-americanos trouxeram nas malas, em visitas ao Brasil no mês de novembro, pedidos bastante amplos de adesão do Brasil à guerra comercial travada entre o governo de Donal Trump e o governo chinês. Pela primeira vez, um representante sugeriu abertamente que um país aliado ocidental deveria não apenas banir Huawei ou ZTE por motivos de segurança, como deveria deixar de lado cadeias produtivas inteiras.

Não bastasse, o conceito de “Rede Limpa” promovido pelos EUA prega a retirada de qualquer dispositivo chinês das redes, sejam estas móveis ou fixas.

Na última semana, o CTIO da TIM, Leonardo Capdeville, comentou essa proposta. Para ele, um banimento de equipamentos apenas por conta da origem teria um efeito catastrófico para o país. As grandes operadoras perderiam um fornecedor ao qual recorreram nos últimos 20 anos, sem histórico de incidentes. Mas, além disso, avalia o executivo, os pequenos provedores seriam riscados do mapa, impossibilitados de comprar os produtos de baixo preço dos chineses.

Análise

Ari Lopes, da consultoria Omdia, explica porque as consequências para os pequenos seriam tão profundas. A seu ver, um banimento por origem resultaria na elevação abrupta de preços por parte dos fornecedores locais. A elevação viria na esteira do salto da demanda.

“Banindo as empresas chinesas fecha-se a porta a equipamentos baratos e com qualidade, que auxiliam muito o mercado de ISPs. Não existe alternativa a isso. Um decisão assim limita a quantidade de fornecedores brutalmente. E até por uma questão de capacidade, os fornecedores autorizados vão fazer aumento de preço praticamente instantâneo”, avalia.

Na visão de Lopes, a situação para ISPs é ruim não apenas no primeiro momento, mas também no longo prazo. “Em termos de futuro, o cenário é tão ruim ou pior. Pense que a Oi estará capitalizada, a Vivo e a TIM também estão atraindo investidores para suas redes de fibra. O banimento pegará os ISPs em momento de aumento da competição e causará aumento de custo”, analisa.

Além da quebradeira no setor, o resultado vai prejudicar a população, uma vez que a eventual obrigação de troca de equipamentos das redes seria um gasto que não permitiria a ampliação da cobertura. “É um esforço desperdiçado”, frisa.

Abrint

A presença de equipamentos chineses nas redes brasileiras, de qualquer porte, não é segredo para ninguém. A Fiberhome, fabricante chinesa de produtos para redes ópticas, declara ao mercado ter abastecido ao menos 55% dos ISPs com seus equipamentos.

Basílio Perez, integrante do conselho de administração da Abrint, entidade que reúne pequenos provedores, confirma esta estimativa. Além da Fiberhome, há casos de fabricantes brasileiros que, embora locais, usam componentes vindos do país asiático. Com isso, é certo afirmar a presença dos produtos chineses vão muito além da fatia de mercado da Fiberhome.

Por isso, Perez defende que o mercado não seja modificado por decisões governamentais. A seu ver, argumentos às acusações de presença de backdoors nos aparelhos não se sustentam. “Em termos de espionagem, banir um fornecedor por marca ou origem é apenas escolher quem poderá espionar as redes. Qualquer grande fabricante tem condições de ter uma porta no equipamento. Excluir o chinês não é garantia de que outro produto não vai ter”, destaca.

Ele ainda diz que a proposta dos EUA em financiar a aquisição de equipamentos de rede não-chineses é inócua. “A China também pode financiar a compra dos produtos de seus fabricantes. E para o nosso universo de provedores, não faz sentido comprar um produto porque seria financiado pelos EUA. Seria algo complexo e distante da nossa realidade”, resume.

Telcomp

Na Telcomp, associação que representa operadoras de menor porte, a percepção é semelhante. João Moura, presidente executivo da entidade, conta que também as competitivas consomem muitos equipamentos chineses. Além de Huawei e FiberHome, compram modems, aparelhos de IPTV, aparelhos de teste de outros fornecedores. “Os ISPs são dependentes da China da mesma forma que a indústria farmacêutica. Se não puderem importar, vão fechar”, ressalta.

Ele, no entanto, duvida de que o governo encampe tal proposta. “Se o governo partir para um banimento com essa base política, de que lá na China o governo é comunista, que falta governança, não terá como traduzir isso para uma normativa objetiva porque, se vale para telecomunicações, tem que valer para tudo mais”, observa.

Um método mais razoável proposto por ele lembra o que foi adotado pela Anatel na aprovação do Regulamento de Segurança Cibernética recentemente, o R-Ciber. “Impedir a contratação de empresas que não tenham padrões de segurança. Permitir apenas equipamentos homologados, e exigir das operadoras responsabilidade pelos sistemas. Mas não pode ser com base no país de procedência”, sugere.

Moura lembra, ainda, que as redes das operadoras e dos ISPs são interligadas no país, há contratos de swap de fibra, de compartilhamento de rede de acesso, entre outros. Ou seja, é quase impossível garantir que os dados não trafeguem, em algum momento, por uma rede com equipamentos que venham a ser restringidos. “O controle tem que ser em camadas mais acima da infraestrutura”, conclui.

Até aqui, os ISPs não se envolveram nas discussões com governo porque as conversas, aparentemente, se restringiram à construção de redes 5G. As grandes operadoras móveis Claro, TIM e Vivo (e Oi, até que a venda de seus ativos móveis se confirme por Anatel e Cade) são, portanto, os alvos primordiais de tais restrições. Vale lembrar, porém, que o próximo leilão de espectro da Anatel terá um bloco destinado a provedores regionais.

Uníssono

Para as grandes, a questão é de suma importância. O risco neste caso não é de fim da efervescência de um mercado que só cresceu nos últimos cinco anos, mas o desperdício de recursos e o atraso da rede móvel brasileira em relação à de outros países.

A Conexis Brasil Digital chegou a emitir comunicado cobrando transparência e participação das teles nessas conversas no final de novembro.

Ontem segunda-feira, 21, a entidade soltou novo comunicado, no qual demonstra alívio com o fato de o governo, através do Ministério das Comunicações, ter ouvido os presidentes das operadoras em reunião realizada há duas semanas. No encontro, todos avisaram que o custo da substituição inviabilizará a expansão das redes.

A reunião, diz o comunicado da Conexis, foi positiva e trouxe mais tranquilidade para o setor. As teles afirmam que o ministro Fabio Faria se comprometeu com soluções de viés técnico e econômico. Diferente, portanto, do que vinha pregando Jair Bolsonaro, que defendia decisão com base na soberania, na política externa e na segurança.

“Estamos satisfeitos com a reunião e o diálogo entre o setor e o governo. O 5G é a plataforma para a indústria 4.0, fundamental para o futuro da economia, da telemedicina, da educação, enfim, de várias áreas importantes para a população brasileira”, afirmou o presidente-executivo da Conexis, Marcos Ferrari, a respeito da reunião.

FONTE: TeleSíntese
Agradecimentos aos autores originais desta publicação! Até a próxima!