Governo descarta privatizar Correios em 2022

Governo descarta privatizar Correios em 2022

Crédito: FreepikO governo federal praticamente descartou a privatização dos Correios no próximo ano. O motivo: resistência do Senado em votar o projeto, já aprovado na Câmara. A matéria aguardava votação no Senado. O assunto não é tratado publicamente, mas há consenso governamental de que a operação está inviabilizada, informa O Globo nesta sexta-feira, 10.

Em 5 de agosto, a Câmara dos Deputados concluiu a votação do projeto de lei da privatização dos Correios (PL 591/2021). O texto do PL altera a legislação para comportar a criação do chamado Sistema Nacional dos Serviços Postais, migra a regulação dos Correios para a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e autoriza a transformação da estatal em sociedade de economia mista. Também determina que a exploração dos serviços postais deve ser feita pela iniciativa privada.

Argumentos falhos

Em resposta a matéria publicada hoje pelo O Globo, a Associação dos Profissionais dos Correios (Adcap) apresenta os seguintes argumentos:

1.“Para o governo, há uma incerteza quanto à autossuficiência e capacidade de investimentos futuros por parte da estatal, o que reforça a necessidade da privatização. Ela precisaria investir R$ 2 bilhões por ano para se colocar no mesmo nível de seus pares. Hoje, ela aplica cerca de R$ 300 milhões por ano”.

Os Correios tiveram um lucro de mais de R$ 1,5 bilhão de reais em 2020. Para 2020, as projeções apontam para algo na ordem de R$ 3 bilhões, conforme declarações do próprio presidente da república. Assim, mesmo que se admita a necessidade de um investimento da magnitude que o governo aponta, os Correios teriam como fazer esse investimento sem sequer necessitar de financiamento.

Quanto à autossuficiência dos Correios, estudo técnico feito pela Diretoria de Finanças dos Correios neste ano apontou que não há risco de continuidade operacional para os Correios no período de 2021 a 2030, prevendo-se lucros bilionários para a organização nesse período. Os Ministérios das Comunicações e da Economia possuem assentos nos colegiados superiores dos Correios e sabem muito bem desse quadro positivo.

2.“Um estudo do BNDES concluiu que a empresa não tem tecnologia, tem baixa produtividade e pouca competitividade”.

Embora sempre haja muito a ser feito em termos de atualização tecnológica, não só nos Correios como na imensa maioria das empresas brasileiras, temos no Brasil uma empresa postal com frota renovada – muito mais nova que as frotas de toda a concorrência – com diversos centros de tratamento de carga automatizados em funcionamento e com experiências em curso envolvendo novas tecnologias, como a de identificação de containers e encomendas por etiquetas de radiofrequência.

Quanto à competitividade e produtividade, os próprios números recordes de postagens, os resultados econômicos da organização e as diversas premiações recebidas falam por si.

Além disso, tais estudos do BNDES deveriam ser amplamente debatidos, inclusive com verificações sobre a adequação e pertinência dos parâmetros e comparações ali adotados.

3.“O levantamento diz que o tempo para entrega de encomendas expressas é maior que os principais serviços do mundo, e o período de entrega praticado pelos Correios no e-commerce subiu nos últimos anos”.

Pesquisas apontam que 3 de cada 4 encomendas postadas por pequenas e médias empresas no Brasil seguem pelos Correios. Além disso, o Brasil tem características logísticas que devem ser levadas em conta em qualquer comparação séria. Somos um país continental, com o 5º maior território do mundo, e grandes assimetrias entre as regiões, sem contar as dificuldades logísticas propriamente ditas, expressas em vias ruins e até em localidades cujo acesso só se dá por ar ou água. A situação num pequeno país europeu certamente é bem mais simples de ser administrada.

Para a Adcap, os argumentos utilizados para tentar justificar a privatização dos Correios não se sustentam quando confrontados com a realidade. “Espera que a sociedade e a classe política percebam isso e evitem que essa má ideia prospere”.

 

FONTE: TeleSíntese
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