Conquista de novos mercados

Por Carmen Lúcia Nery

[O Tele.Síntese vai publicar ao longo das próximas semanas as reportagens publicadas no Anuário Tele.Síntese de Inovação 2020, editado no final do ano passado e que pode ser baixado na íntegra e gratuitamente aqui]

Ao contrário dos anos anteriores, quando sete novos cabos submarinos foram ativados no Brasil, 2020 foi marcado pelo adiamento dos planos. Das promessas dos novos cabos que começariam a funcionar no país neste ano, apenas a Angola Cables avançou e resolveu apostar firme em novos mercados – como o gaming. A EllaLink só vai conseguir concluir a construção de seu cabo até a Europa entre abril e maio de 2021.

A GlobeNet adiou o lançamento, previsto para agosto de 2020, do cabo Malbec, que possivelmente só entrará em operação a partir de dezembro. Já a Seaborn, que entrou e saiu da recuperação judicial, também deixou para 2021 a ativação de novos pontos de acesso na costa brasileira. Globalmente, o mercado manteve a expansão. O último relatório da TeleGeography mostra que existem 447 sistemas de cabos e 1.194 estações de aterrissagem atualmente ativas ou em construção.

Em 2019 o Brasil tinha 20 cabos submarinos, dos quais 16 estão em operação, sendo que 14 alocados somente em Fortaleza (CE), onde até ao final de 2021 estarão 18 cabos instalados. Dessa base, quatro sistemas são novos. Nos últimos dois anos, o Brasil também ganhou relevância, devido ao anúncio de conexões diretas com a Europa, por meio de novo cabo da EllaLink; e à África, por meio dos investimentos da Angola Cables.

Philippe Dumont, CEO da EllaLink, destaca que o cabo em construção pela empresa será a primeira conexão direta entre a América Latina e a Europa. A operadora havia anunciado a ativação para dezembro de 2020, mas, em outubro, Dumont revelou que o início da operação será entre abril e maio de 2021.

A construção começou em janeiro de 2019, no entanto, com a crise da Covid-19 houve atraso e apenas 75% do projeto está concluído. “Já construímos dez estações de 18 Terabytes por par de fibras. O tronco conta com quatro pares de fibras, totalizando 72 Terabytes; além de mais cinco pares para conexão com o Marrocos e a Ilha da Madeira”, diz Dumont.

O EllaLink começa em Sines, a 150 quilômetros de Lisboa, e chega até Fortaleza, totalizando 6 mil quilômetros de extensão. De Fortaleza, o cabo irá ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Originalmente, o projeto teria participação da Telebras, que deixou a iniciativa por falta de recursos. A construção está a cargo da Alcatel Submarine Networks, e um dos principais apelos do cabo é a redução da latência entre a América do Sul e países asiáticos através da Europa.

“Com a ligação direta América Latina-Europa, podemos oferecer, com certeza, uma redução de 50% na latência. E somos abertos, não estamos vinculados a nenhuma operadora de telecomunicações ou a OTT. Nossa gama de serviços estará à disposição de qualquer cliente numa operação Wholesale (atacado)”, garante Dumont.

Com ramificações em países africanos como Marrocos, Cabo Verde e Mauritânia, o EllaLink também terá na Europa conexão terrestre com Madri, Barcelona e Marselha. Em Lisboa, a empresa se conecta a um ponto da Equinix, provedora de data centers e pontos de troca de tráfego, e depois a outro PTT da Equinix em Madri. Na capital espanhola, a EllaLink usará backbone e backhaul para conexão a Marselha, na França. “Será possível conectar Marselha a São Paulo em 119 milissegundos, a menor latência do mercado”, assegura Dumont.

No Brasil, o cabo terá as instalações de landing station da Telxius (subsidiária de cabos da Telefónica) e também se conectará com a infraestrutura da GlobeNet e da Lumen (ex-CenturyLink) na capital cearense. A ideia é oferecer serviço completo de POP. “Não somos apenas um cabo substituto, e sim um backhaul resiliente e uma rota diversificada. Estaremos ligados às estações da GlobeNet e da CenturyLink próximas a Fortaleza, e nosso tráfego se moverá para Rio de Janeiro e São Paulo, onde nosso ponto de presença estará disponível nas instalações da Equinix”, destaca Dumont.

Novo cabo no Pacífico

A Telxius tem se posicionado como operador neutro de telecomunicações, combinando infraestrutura de torres e de cabos submarinos. A empresa gerencia uma rede internacional com aproximadamente 100 mil quilômetros de cabos, incluindo o sistema Marea, no Oceano Atlântico, e Brusa (Brasil-Porto Rico-EUA). O Brusa começou a operar em agosto de 2018 e se estende por cerca de 10,2 mil quilômetros o Rio de Janeiro, no Brasil, e Virginia Beach, nos EUA.

“Esses dois cabos são atualmente os de maior capacidade de transmissão submarina no mundo, sendo 200 Tbps no Marea e 160 Tbps no Brusa. Agora estamos investindo na implantação de um novo cabo no Pacífico, em parceria com a America Movil, de 7,3 mil quilômetros e capacidade de 100 Tbps”, diz Rafael Sgrott, country manager da Telxius no Brasil.

A Telefónica vinha reduzindo sua participação na Telxius, com a venda de 40% para a empresa de private equity KKR, por um total de € 1,275 bilhão em 2017 e cerca de 10% para a Pontegadea, holding do fundador da Zara, Amancio Ortega, por um total de € 378,8 milhões. Mas, ainda mantém o controle com 50,1%.

A Telxius tem investido na modernização de sua infraestrutura e obteve velocidades recordes de 550 Gbps em um único canal de comprimento de onda através do Brusa. Como o cabo possui oito pares de fibra, agora é também capaz de atingir uma capacidade total de transmissão de mais de 160 Tbps (ante os cerca de 100 Tbps do projeto original de 2016).

“Além dos cabos submarinos fizemos um investimento em um novo hub de comunicações no Norte da Espanha. Isso traz um benefício de diversidade e redundância para conexão com Marselha, Paris, Londres e França”, conclui Sgrott.

A aproximação do final da vida útil de muitos sistemas traz a perspectiva de um novo boom de investimentos nos próximos cinco anos. Ângelo Gama, novo CEO da Angola Cables, diz que a aposta da empresa no Nordeste do Brasil já antecipava o crescimento do país como hub de conectividade. A expectativa da empresa é de que, em 2021, Fortaleza torne-se um dos maiores polos de cabos submarinos do mundo, consolidando o “Cinturão Digital do Ceará” como o principal polo de conexão, processamento e transmissão de dados do país.

“Estamos alinhados com o crescimento do Brasil desde o primeiro momento. Nosso IP Trânsito é de alta qualidade, somos flexíveis e temos a maior diversificação de ligações internacionais. Ligamos o Brasil aos Estados Unidos, Europa e África através dos sistemas Monet, SACS e WACS, com resiliência e capacidade de interligação continental”, enumera Gama.

A empresa ampliou a capilaridade com expansão para as regiões Sudeste e Sul e abertura de novos pontos de presença (POPs). Atualmente, são seis no Brasil e 27 no mundo. Devido à pandemia, o volume de tráfego entre as redes da Angola Cables aumentou seis vezes no Brasil, três vezes na média global e de uma vez e meia na África.

Para Gama, a investida das OTTs significa um reconhecimento do valor das redes de cabos submarinos e representa uma oportunidade de a empresa interligá-los aos seus cabos e data centers. “Sabemos que vão beneficiar o ecossistema digital e criar novos desafios e oportunidades de crescimento, especialmente na África e na ligação do continente com as Américas”, acredita o CEO da Angola Cables.

Gama diz que a indústria de Telecom está hoje numa encruzilhada. No novo mercado do gaming digital, as telcos estão tentando entender como adicionar valor, evitando a pressão dos OTTs. Devido ao histórico de preços altos dessas operadoras, as OTTs criaram soluções de cache dos seus conteúdos, a fim de reduzirem custos dos usuários.

Gama estima ainda que a chegada do 5G vai mudar o que conhecemos hoje, com velocidade 20 vezes mais rápida do que as redes de 4G existentes atualmente. “No 5G, vamos oferecer uma latência que cairá de 20 para 5 milissegundos, o que é crítico para o mercado de gaming. A baixa latência e os novos smartphones farão dos dispositivos uma plataforma de grande utilização para o cloud gaming e o streaming de vídeos”.

A erosão dos preços também traz desafios para a indústria de cabos, porque faz com que o tempo de recuperação dos investimentos seja maior. “Esta é uma situação cíclica, mas desafiadora para a gestão das operadoras, porque, ao mesmo tempo, é preciso reservar os recursos para os investimentos e os custos baseados em dólar”, observa o CEO da Angola Cables.

Demanda dos ISPs

Para a GlobeNet, a parceria com as OTTs, como o Facebook, ajuda a viabilizar novos projetos e abrir novos mercados. No início do ano, a empresa registrou aumento de 100% no tráfego em sua rede no Brasil e na América Latina, devido ao crescimento da demanda de provedores regionais, além das operadoras de grande porte, que têm requerido mais capacidade para atender à crescente procura por dados. A empresa destaca que são mais de 10 mil provedores registrados na Anatel.

Embora o tráfego corporativo tenha diminuído, o tráfego de internet nas residências explodiu devido ao uso de aplicativos de trabalho remoto em plataformas na nuvem e ao maior consumo de serviços de navegação, streaming e jogos.

Para Carlos Agripino, diretor regional de vendas da GlobeNet, streaming e games são as verticais que mais crescerão nos próximos anos. Assim, além da largura de banda, a latência é outro fator essencial para a boa performance dessas aplicações. Apesar do crescimento da demanda, a GlobeNet não conseguiu ativar o novo cabo Malbec, previsto para agosto de 2020 e que só deve entrar em operação em dezembro. A rota, que tem 2,6 mil quilômetros, foi construída em conjunto com o Facebook e liga Rio de Janeiro, São Paulo e Las Toninas (Argentina). O sistema também foi concebido com uma unidade em Porto Alegre, que permitirá que a empresa atinja a região Sul do Brasil, mercado não atendido pelo sistema de cabos submarinos.

Isso porque, apesar do protagonismo de Fortaleza, há também no Brasil uma demanda dos provedores regionais de infraestrutura por novas landing stations de cabos em demais pontos da costa. Além da unidade de Porto Alegre da GlobeNet, a Seaborn terá conexões em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. A Seaborn foi criada em 2012 e instalou, em 2017, o sistema Seabras-1, com 11 mil quilômetros de cabos ligando os EUA, a partir de Nova York, a São Paulo. Steve Orlando, o novo CEO da empresa, diz que há uma grande demanda na América Latina para distribuição de conteúdo e por empresas de mídia. Há ainda crescimento do mercado corporativo com mais e mais empresas consumindo tráfego IP.

“Não basta ligação dos EUA para o Brasil, mas também oferecer conectividade dentro da região. Há um crescimento explosivo na capacidade de edge computing e de data centers, demandando conectividade. Mesmo com construção de cabos recentes, o Brasil continua sendo um enorme mercado, e ainda há oportunidade para novos pontos no Nordeste e no Sul do país. A América Latina e o Caribe são uma área de desenvolvimento para nós”, afirma Orlando.

A Seaborn também contratou a Infinera para iluminar o par de fibra que possui no cabo submarino AMX-1, da América Móvil. O cabo é usado como rota alternativa ao Seabras-1, estrutura 100% detida pela Seaborn. Com a iluminação, a empresa espera dar novos usos ao AMX-1, por meio do qual lançou serviços de conectividade entre Brasil e Estados Unidos, ligando Rio de Janeiro a Jacksonvile, na Flórida. No Brasil, a Seaborn escolheu Recife para iniciar as ativações pelo Nordeste. Além da ligação direta entre Nova York e São Paulo, o business plan já planejava criar sete derivações ao longo do caminho, três nos EUA e Caribe, e quatro na costa brasileira – atendendo Recife, Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo, e, deste, até a Argentina. “Recife é estratégico por ser uma das principais cidades do Nordeste e um hub econômico muito próximo ao Centro-Oeste e à Bahia. Estamos na fase de desenvolvimento deste projeto com lançamento previsto para o último trimestre de 2021”, diz Michel Marcelino, VP sênior e head da Seaborn para a América Latina.

Ele ressalta que o diferencial do Seabras-1 é que ele passa ao largo do Caribe, ficando livre dos eventos climáticos da região, como os furacões.  O perfil da demanda é de provedores de conteúdo para entretenimento e os ISPs. “O desafio hoje é a erosão dos preços do megabit e como atender a nova demanda de baixa latência, especialmente para os serviços de streaming e games. Como temos um sistema muito novo, temos a menor latência direta entre São Paulo e Nova York, em 108 milissegundos, crítico para o mercado financeiro”, destaca Marcelino.

A Seaborn entrou em recuperação judicial em dezembro do ano passado, mas saiu seis meses depois devido à reestruturação financeira. Marcelino explica que a crise ocorreu por meio da mudança do
modelo de contrato de IRU para leasing. No IRU, o provedor vende um direito de uso de 25 anos para
um parceiro em troca de um adiantamento de Capex ou pagamentos durante a construção do cabo.

“Usamos o dispositivo do Chaper 11 simplesmente para renegociar o prazo do empréstimo. Quando  fizemos o funding com os investidores, havia a perspectiva de que o mercado de IRU responderia
por grande parte de nossas receitas. Mas, com a mudança para leasing, refizemos o plano de negócios para nossos financiadores. Saímos muito mais fortes da recuperação”, avalia Marcelino.

FONTE: TeleSíntese
Agradecimentos aos autores originais desta publicação! Até a próxima!