Amyr Klink e o Radioamadorismo

Adaptação e Texto por Eduardo Freitas – PY2VR*


*Texto escrito especialmente para o NetBR da rede DMR/Brandmeister e republicado com autorização. Documento originalmente publicado em https://www.ham-dmr.com.br/2021/07/11/net-br-165-amyr-klinke-e-o-radioamadorismo/ 

Às seis horas do dia 10 de junho de 1984, numa fria manhã de domingo, o navegador brasileiro Amyr Klink
estava autorizado a deixar o porto de Lüderitz, na Namíbia. Aos poucos, o cais e as pessoas que lhe
desejavam boa sorte desaparecem da paisagem. Focas e golfinhos surgiram para brincar em torno do
barco a remo de 5,94 metros. Logo o comandante –e única pessoa a bordo– do Paraty avistou uma
colônia de pinguins, mas a calmaria durou pouco. O mar mudou subitamente. Enquanto a água inundava
o cockpit de Amyr, parte de seu equipamento se perdia. A aventura de atravessar remando todo o Oceano
Atlântico havia começado.

Amyr trabalhava até 16 horas por dia, mas se sentia mais desgastado psicologicamente do que
fisicamente. Ingeria diariamente 4.200 calorias com refeições desidratas e sem sal, para que pudesse usar
a água do mar no cozimento e já como tempero, economizando sua água doce. Em seus momentos de
lazer, escutava uma fita de música, sintonizava em alguma rádio ou lia “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel
García Márquez. Lamentou quando percebeu que o único item que esquecera era justamente seu
travesseiro. Dormia encaixado no fundo da popa e, às vezes, ao acordar, divertia-se relembrando dos seus
sonhos. Sozinho por 101 dias, era essencial lidar bem consigo mesmo.

O início

Tudo começou em uma manhã na bela cidade de Parati, RJ quando Amyr decidiu dar um passeio em sua
canoa “Faísca” e remando lentamente encontrou uma maré bastante cheia e um veleiro interessante,
que deveria ter chegado durante a noite. Não resistiu. Um pouco cedo demais, passava das 6:00hs da
manhã, encostou e bateu na janelinha. Que susto levou! Veio para fora um casal brigando como gato e
cachorro. Ficou sem graça, se desculpou e explicou que eles deveriam sair dali antes que a maré baixasse,
ou encalhariam.

– E para onde você quer nos mandar? – perguntou agressivo, o marido.

– Bem, vocês podem atracar no cais, como todos os barcos; mas, se quiserem, tenho no sítio um bom
abrigo, côcos, bananas e hospitaleiros borrachudos.

A sugestão parece tê-lo acalmado, pois não só ganhei um convite para o café, que ainda não tinha tomado,
como desfrutei de uma interessante carona a bordo. O “Faísca” foi atrás a reboque.

Chamavam-se Michel e Fredérique. Eram franceses e estavam há dois anos navegando com duas crianças,
que ainda dormiam. Subitamente o Michel olhou para o relógio, pulou da mesa e ligou um estranho
receptor. Estava atrasado para seu comunicado via rádio habitual com o F6CIU, no interior da França.

Não é possível, pensou! Amyr já tinha visto aquele prefixo de radioamador antes.
– Não é o Maurice? – perguntou Amyr de brincadeira.
Incrível! Era ele mesmo.

Quem diria que nos confins da baía da Ilha Grande, eu falaria com um desconhecido no outro lado do
Atlântico, por quem eu perguntara? Colocou em prática o seu francês e em pane as baterias do veleiro de
tanto falar.

Resolveu, então, após tão impressionante coincidência, tornar-se radioamador, seu futuro barco deveria
ter um rádio.

O PARATY, seu pequeno barco a remo, deveria ter um rádio. Mas grande dúvida foi: por onde começar?
A quem devo consultar? Ele não entendia absolutamente nada sobre o rádio e durante um final de
semana, viajando até São Paulo, recorreu aos Classificados do Estadão de domingo – “Negócios e
Oportunidades”, normalmente repletos de anúncios de todos os tipos.

Pegou o telefone e ligou para o primeiro:

– Olha, eu não sou radioamador, mas estou interessado em obter alguma informação…

Bateram o telefone sem dar resposta. Mau começo. Mafiosos, talvez, esses radioamadores, pensou. Ligou
para o próximo e, antes de explicar o que queria, pediu que não desligasse. Atendeu um rapaz muito
atencioso, visivelmente viciado em rádio que, após 40 minutos de conversa, propôs a lhe orientar
pessoalmente e foi a casa do Amyr. Era um jovem simpático e inteligente, que não parava de falar em
antenas, bobinas e condensadores. Amyr abriu um mapa do Atlântico Sul e, meio sem graça, explicou a
sua pretensão de cruzar o Atlântico a remo a partir de uma cidade da Namíbia, chamada Lüderitz. O rapaz
se espantou e perguntou:

Como?
Amy respondeu:

– Sim, Lüderitz é o nome de onde irei sair em direção ao Brasil
O rapaz então pergunta a Amyr:

– Você sabe qual é o meu nome?

Amyr ficou envergonhado, o rapaz fora tão gentil e ele nem ao menos havia perguntado o nome dele. A
resposta quase derrubou Amyr da cadeira:

– Meu nome é Henrique Lüderitz.

Ambos riram muito e partir deste dia Henrique se incorporou ao projeto e com sua orientação Amyr se
tornaria radioamador, o então PY2KAQ

Durante a viagem Amyr contou com o apoio de muitos radioamadores, sempre se comunicava com seu
pai, em uma tarde durante um QSO seu pai, pressentindo a dificuldade de Amyr em responder quando
estaria de volta, entrou na frequência um radioamador de voz forte e decidida:

“MUITO BEM AMYR VOCÊ ESTÁ EXATAMENTE DENTRO DA CORRENTE QUE VAI TE TRAZER A BAÍA DE
TODOS OS SANTOS DE SÃO SALVADOR”.

Essa grande voz, motivadora, incentivadora era o Ayres – PY1ASI, a bordo de um super tanque da
Petrobrás, o Felipe Camarão, que naquele momento navegava pelo Mediterrâneo. Formidável pessoa,
que a partir deste QSO estaria sempre presente com seu otimismo em todos os QSO’s.

Em uma noite de quinta-feira, Amyr estava em 20M QSO com alguns amigos, entre eles o Henrique
Lüderitz, o Álvaro Ricardo de Souza (o PY2ARS da ARS Eletrônica). Voltou a falar com o Ayres, a bordo do
Felipe Camarão, e percebeu que todos ficaram inquietos com a posição geográfica reportada pelo Amyr,
era uma posição estimada, pois com o mau tempo, não fora possível encostar no sextante, mas que após
11 dias de viagem ainda o deixava perigosamente próximo a costa. Amyr informou que já havia cruzado
o Trópico de Capricórnio e que o rendimento estava baixo por causa do tempo ruim, mas que melhoraria.

Outro radioamador que muito auxiliou Amyr foi o Donald PY1E MM da Escola Naval do Rio de Janeiro o
qual sempre reportava previsões do tempo, algumas boas, outras ruins, mas um amigo que a distância,
zelava pela segurança da longa viagem no Atlântico.

Em um determinado dia, as 15:39 UTC Amyr encerrou o expediente do remo para poder ligar o rádio para
atender a um QSO agendado com o Gerd, um radioamador sul africano que muito o ajudou nos desembaraços aduaneiros para início da viagem, ao Gerd comentou em inglês sobre o problema que mais
o preocupava então, os moluscos crescendo no fundo, e da necessidade de mergulhar para fazer uma
limpeza. Porém Amyr não sabia que na casa do Alex, outro radioamador de São Paulo, seu pai estava
junto ao rádio, atento a frequência. Amyr levou uma tremenda bronca em pleno oceano Atlântico. – Nada
de mergulhos!

Os dias de rádio eram de grande expectativa. Estava sempre ansioso por notícias de todos, mas, ao final
de longos QSOs, não parava mais de responder perguntas aflitas e terminavam assim, sem novidades de
ninguém.

A maioria dos radioamadores que o ouviam pouco entendiam de navegação e não percebiam a
importância de determinadas posições reportadas pelo Ayres PY1ASI do Felipe Camarão, mas não era raro
Amyr deixar transparecer sua satisfação de receber determinadas informações deste tão importante
amigo do mar.

Em um destes QSO Amyr falou com sua mãe através do Álvaro PY2ARS e comentou que pode poupar
alguns cabelinhos brancos dela, tranquilizando-a. De tão emocionada que estava com aquele QSO, sua
mãe mal conseguia falar. Ao final do QSO ouviu o a voz do Peter, na Ilha Grande, o Peter da Macaca, que
mora eremita há mais de 20 anos na ilha, não distante do presídio, em um pedacinho do paraíso escondido
entre coqueiros e as mirabolantes antenas de sua estação de radioamador.

Uma das grandes preocupações de quem navega em mar aberto com pequenas embarcações são os
Navios, Amyr estava cansado de ouvir casos de veleiros que desapareceram após colidir com navios. Uma
dessas histórias ouviu de um tripulante contando que ao atracar num porto europeu encontraram na
proa, presos na âncora de bombordo, destroços de um mastro e pedações de vela. Nunca se soube
quando aconteceu o desastre e nem qual seria o pobre veleiro.

Os navios são (ou eram) cegos no mar, e quem navega sozinho deve assumir por sua conta e risco este
fato. Especialmente durante o dia. À noite, as luzes de um pequeno são visíveis uma razoável distância, e
neste caso o vigia pode tomar alguma atitude, em geral deve-se estar atento permanentemente e nunca
esperar que o monstro de aço saia da frente primeiro.

Era 30 de agosto. Os remos já estavam prontos para ir dormir, mas ao recolher um que ainda estava solto
sobre o barco, um grande susto! – Navio! Navio! Navio! Assim Amyr berrou desesperado. Passava a sua
frente, a distância não permitia distinguir pessoas, mas ele sabia que havia gente nas proximidades, gente
trabalhando, comendo em mesas, conversando, ali a frente do Paraty.

Amyr apanhou o HT de VHF e no Canal 16 fez uma chamada:

– Grande navio cinza. Grande navio cinza. Aqui é a embarcação IAT chamando, câmbio.

E para sua surpresa ao ouvir a resposta num inglês bem napolitano:

– Prossiga IAT. Aqui é o Mount Cabrite, câmbio.

Era um cargueiro de bandeira liberiana e tripulação italiana que seguia para os Estados Unidos e seguiram
um diálogo pouco lacônico:

– Não o avistamos. Você perdeu o mastro? -perguntou o operador de rádio do navio
– Não tenho mastro, respondeu Amyr.
– Você está com pane nas máquinas?
– Não tenho máquinas. Estou remando!

Houve um silêncio no rádio

– Há outros sobreviventes? Voltou o operador novamente.

– Não! Não! Respondeu Amyr. Sou o único tripulante a bordo. Vou para Salvador. Está tudo bem.
Por favor, confirme e comunique minha posição ao concontramar no Rio de Janeiro.

– Morreram todos os outros?

– Não. Não. Eu parti sozinho, da África, de Lüderitz

Novo silêncio. Oficial de rádio demorou a acreditar e, enquanto pedia a posição à ponte de comando, não
escondeu que duvidava do que ouvia.

Amyr teve a oportunidade, durante a viagem, de se comunicar com diversos navios, fosse pelo VHF a curta
distância, fosse por ondas curtas em SSB.

Meio-dia, hora do Brasil. Não era mais possível calcular a posição pelo sol. Não havia mais horizonte livre
ao norte e sim a ponta do Açu da Torre; em cima, imponente, o Garcia D’Avila.

O suor escorria pela testa e entrava pelos olhos. Mal podia enxergar. Amarrei a camiseta no ombro direito
para enxugar o rosto sem soltar dos punhos, e ao olhar para o relógio lembrou que teria as 13:30 um QSO
habitual. Seria o quadragésimo QSO e ele não poderia se atrasar já que nunca falhara e, britanicamente,
nunca atrasara um só minuto. Se Amyr se atrasasse um pouco os radioamadores perceberiam que algo
de errado se passava. Precisava a qualquer custo baixar o ferro, antes do QSO, ou eles perceberiam minha
chegada antes do previsto.

As 13:19 do dia seguinte Amyr depois de pernoitar na praia da espera, começa a remar e logo alcança o
remanso da barra onde estavam sete barquinhos. Largou os remos, pegou a ancora e a lançou, estava a
cerca de 20 metros da praia.

O relógio marcava 13:20. A antena! A antena ainda não estava amarrada, puxou-a rápida de seu canto,
sob o colchão e as 13:25 com os dedos nervosos, prendeu o último tirante.

As 13:28 ligou o rádio. Faltava a bobina. Saiu com a bobina de vinte metros nos dentes, atarrachou como
um mágico, pulou para dentro da cabina e pontualmente as 13:30 entrou na frequência.

Lá estavam o Álvaro PY2ARS, o Luciano PY2DAB, o Mário, o Ronaldo, o Gerd e tantos outros
radioamadores atentos na escuta. Foi o Alex que “pescou” o Amyr na frequência, e do mesmo modo,
como sempre fez ao longo de 100 dias, com a voz pausada e o seu arrastado sotaque húngaro, começou:

– PY2KAQ móvel marítimo de PY2PA: – Boa tarde, Amyr, espero que tudo esteja em ordem.
Responda por favor: Primeiro, estado geral; segundo posição; e terceiro: distância da costa.
Adiante, PY2KAQ.

Emocionado, Amyr tentou controlar a respiração ainda ofegante:

– OK Alex, 100% copiando. Estado geral perfeito. Sem problemas. Infelizmente não posso calcular
a posição… O Alex ficava nervoso, pois a falta de posição era sinal de mau tempo e mar duro.

– Porque estou cercado de coqueiros e… acabo de chegar…

O Alex engasgou pela primeira vez, e o Álvaro, emocionado, não conseguiu dizer uma só palavra.

Explodiu no rádio uma invasão de vozes, prefixos, nomes de radioamadores de todos os cantos do planeta
que acompanharam atenta e silenciosamente todos os meus passos, dia a dia, numa longa vigília que
acabava de terminar.

Tanta gente falando, cumprimentando, agradecendo e eu não pude transmitir a posição e o local de
chegada.

Amyr desligou o rádio, estava a vinte metros da praia da Espera, em Salvador, BA.

Participaram deste maravilhoso projeto os seguintes radioamadores

  1. PY2ARS – Álvaro Ricardo de Sousa
  2. PY2DAB Luciano Falzoni
  3. PY2EXP Henrique Lüderitz
  4. ZS3B Gerd Schlorf
  5. PY1ASI Ayres
  6. PY1 E MM Escola Naval do Rio de Janeiro
  7. PY2WO Donald
  8. PY2PA e PY2PE Alex e Eva Pereny
  9. PP1CM Ronald e Teresa
  10. F6CIUMauriceUguen
  11. OD5MCRobert
  12. PY2CDMário
  13. PY2BPH-Nilton
  14. PY2UZD MT Claudio
  15. PY6NXHenriqueDantas
  16. PY1DTPMMCardoso
  17. ZD7CWJulian
  18. PY1ZAKPeter

Bibliografia

Livro: Cem dias entre céu e mar – Amyr Klink – José Olimpio Editora – 22a. Edição – 1988

Para um relato em primeira pessoa da aventura, leia o relato do próprio Amyr Klink em sua página em http://www.amyrklink.com.br/tres-decadas-depois-amyr-klink-relembra-travessia-maritima-feita-a-remo/










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FONTE: Blog QTC da ECRA
Meu agradecimento pelas excelentes publicações!