A era dos incandescentes

Por Silvio Pinheiro, PU2SRZ

A era dos incandescentes. Lâmpada elétrica.

Ainda hoje, 45 anos após ver o mundo pela primeira vez, me surpreendo com esse invento. O cristal, o vácuo a eletricidade circulando num diminuto filamento de tungstênio. A resistência elétrica desse frágil herói-filamento que consegue pelas suas características físicas e químicas “domar” de forma correta e balanceada um fluxo de elétrons tendendo a desordem.

Nesse elegante equilíbrio entre forças o altíssimo calor gerado se manifesta em outra sensação que nossos olhos percebem como luz. Todas essas energias contidas num frágil bulbo de cristal, sem atmosfera e silencioso. Tudo isso dentro desses pequenos mundos.

A muitos anos atrás visitava com minha família amigos que moravam em nosso bairro e um belo dia soube no auge dos meus sete anos através das palavras de minha mãe que vários desses amigos eram radioamadores. Eu nunca tinha ouvido essa palavra e muito menos entendido o que isso significava. 

Percebi que logo após chegarmos na casa desses amigos, as mulheres se reuniam quase sempre na cozinha para conversar e fazer café e os homens já iam saindo de fininho até a sala do rádio. Com a curiosidade típica da idade, segui um deles até uma mesa cheia de luzes e peças de metal cromado, caixas com alto-falantes e uma infinidade de cadernos e canetas. Do rádio sobre uma mesa saía um som anasalado e  algumas vezes uns apitos cadenciados que todos ouviam atentamente. 

Depois que aqueles “burst” de sinais incompreensíveis chegavam, invariavelmente todos sorriam como se algo de grande feito tivesse ocorrido. Anotavam tudo num caderno e começava agora novamente os apitos, só que dessa vez quem produzia esses sinais eram aqueles que antes estavam ouvindo. Os sinais eram feitos pressionando um botão de baquelite preto, fixado numa haste de latão de onde vinham fios de tecidos listrados, de um lado branco e preto de outro branco e vermelho, ambos ligados a uma grande caixa com mostradores, telas de tecido e luzes incandescentes.

Ao notarem a minha presença me chamaram para chegar perto. Me aproximei e perguntei o que era aquilo tudo. Um deles me falou que estavam falando com pessoas do outro lado do mundo. Me admirei com aquilo e logo perguntei como era possível falar tão longe já que não estava vendo nenhum fio de telefone saindo da caixa. Pacientemente um deles me explicou apontando para uma lâmpada no centro da sala que com a mesma energia era possível naqueles equipamentos em vez de luz, emitir radio frequência. Do outro lado do mundo existia uma pessoa com mesma caixa que iria receber a nossa voz. 

Me mostrou também que em vez de falar, podiam se comunicar com sons. Cadências e durações diferentes eram interpretadas como letra por quem ouvia e por quem emitia. Como as antigas “cartas enigmáticas” que tinham desenhos para representar letras e palavras, eles usavam sons para representar as letras. Um deles perguntou o meu nome e me mostrou como seria o som de meu nome naquele estranho código. Achei fascinante tudo aquilo, como um segredo de uma turma de amigos, eu agora tinha um nome sonoro.

Anos depois, e bota anos nisso, dentre vários podcasts que ouço, um deles ma chamou a atenção. Foi produzido pelo João Roberto [PY2JF] para o Papotech, um podcast sobre tecnologia que num belo dia eles resolveram falar sobre radioamadorismo. Ouvi atentamente e me decidi a comprar um par de HT chineses para corujar alguma coisa e também pra me comunicar com meus filhos do apartamento até o playground. Sei, sei estava sendo ilegal, mas sinceramente nem sabia o que era isso. Comprei com três cliques no eBay e um mês depois estava falando com os moleques.

Num belo dia ouvi uma conversa diferente sobre capacitores e antenas entre dois colegas. Como sou hobbista de eletrônica a anos, não me contive e dei o meu pitaco. Quem me contestou foi o Billy (PY2LCD) me explicando sobre o assunto tratado e de forma extremamente educada me informou que estávamos usando uma faixa de frequência dedicada exclusivamente ao hobby do radioamadorismo e que era necessário, para continuar falando comigo, que eu providenciasse a minha estação licenciada. Em menos de dois meses estava com o COER na mão e as licenças das minhas estações devidamente habilitadas.

Ao fazer o primeiro chamado oficial da estação de PU2SRZ nos 2 metros, fui prontamente contestado por PY2EDD. Depois das minhas apresentações formais na troca de cambio aguardei receber os dados da estação, localização e nome do operador. Ao ouvir o nome do operador não acreditei. O mesmo colega que a mais de 35 anos atrás tinha me ensinado o que era rádio estava contestando a minha primeiríssima transmissão. Foi muito emocionante a mim e a todos que estavam na frequência. Choradeira minha, de minha mulher, filhos, radioamigos, até hoje não entendo o que realmente aconteceu.

Essa é uma das várias histórias que ainda lembro ao olhar para as antigas lâmpadas incandescentes. Nelas vejo o nosso hobby: apesar de outras tecnologias superarem, ainda têm muita mágica e assombro. Fica aqui o meu formal agradecimento a estes nobres colegas incandescentes que ainda me ajudam a escrever algumas histórias como essa.

  • PY2EDD – Padrinho Néveo. A lâmpada.
  • PY2UV – Fabinho. Meu querido amigão.
  • PY2FFZ – Carlão. Professor de RF e genial amigo
  • PY2LCD – Billy. O alemão mais brasileiro do rádio.
  • PU2NZZ – Mario (China) professor de modos digitais
  • PU2KGK – Joffre. O cara mais boa praça do rádio.
  • PY2DEL – Pedrão. O cara mais antenado em tecnologia que conheço.
  • PU2LLJ – Celsão. Gentil colecionador de amigos e games.
  • PU2PTU – Carlão. Onde o coração sempre chega antes dos pés.

Putz, têm muito mais que estou esquecendo. Me desculpem.

73 DE PU2SRZ

Fonte: https://www.facebook.com/groups/radioamadordeapartamento/permalink/897767786936086




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FONTE: Blog QTC da ECRA
Aproveito a oportunidade para renovar meus protestos de respeito e consideração aos autores da publicação original.